Dores de Cabeça

April 18, 2008 · Imprima este Artigo

Dores de Cabeça
(enxaquecas e cefaleias)

A terapia Cognitivo-Comportamental tem-se mostrado eficiente no tratamento da dor crónica. Especificamente nas cefaleias e enxaquecas é relevante a discussão crítica dos factores antecedentes e consequentes a uma crise de dor. Ela permite que o doente identifique esses factores, sejam eles ambientais, emocionais, comportamentais ou cognitivos, e a interligação que existe entre eles. A essa identificação segue-se a sugestão de técnicas instrumentais Cognitivo-Comportamentais, destacando-se a revisão dos pensamentos distorcidos e a sua ligação com a carga emocional negativa que acompanha a vivência da dor. O objectivo desta abordagem é não só possibilitar à pessoa uma mudança da percepção da dor, como também propiciar a recuperação e/ou a melhoria da qualidade de vida (muitas vezes prejudicada de forma incapacitante), através de estratégias de enfrentamento aprendidas. Programas de tratamento baseados no modelo Psicoterapêutico Cognitivo-Comportamental têm demonstrado eficácia no controle da dor crónica em geral (Bonica, 1990; Main e Spanswick, 2000).

PROTOCOLO DE TRATAMENTO

Num primeiro momento, a abordagem Cognitivo-Comportamental tem por objectivo providenciar a pessoa com instrumentais que facilitem a convivência com a dor crónica, além de toda a informação disponível sobre o que é o modelo, a doença, os factores desencadeantes e consequentes de dor.

Esclarecemos a pessoa acerca de:
• O que é cefaleia e a enxaqueca e por que se consideram um tipo de dor crónica.
• Que a dor é uma percepção que envolve aspectos cognitivos, afectivos e comportamentais.
• Que a dor demanda tratamento quer seja médico como não-medicamentoso a médio e longo prazo.
• Que a dor pode inibir determinadas actividades ou até incapacitar a vida do dia a dia num grau elevado, quando não tratada adequadamente.
• As implicações familiares, profissionais e sociais que delas acarretam.

Num segundo momento, a pessoa é levada a analisar a ligação entre pensamento, emoção, comportamentos e factores ambientais, que contribuem tanto para o surgimento quanto para a perpetuação dos sintomas da doença. Nessa etapa, incentiva-se a pessoa:

• Criar e manter a aderência ao tratamento.
• Diminuir a ingestão de medicamentos analgésicos.
• Substituir comportamentos que possam desencadear crises de cefaleias por aqueles que possam preveni-las e diminuir a percepção da dor.
• Controlar os desencadeantes e consequências ambientais, alimentares e emocionais.
• Uma reestruturação cognitiva.
• Envolver a família no tratamento.
• Tratar a depressão e a ansiedade ligadas à dor ou como co-morbilidades.

O segundo momento da abordagem compreende 3 etapas:

A – Identificação dos factores antecedentes e consequentes a uma crise de cefaleia e/ou enxaqueca. Os antecedentes são os eventos que precedem uma crise de dor. Muitos doentes ignoram, por exemplo, que alimentos, variação de temperatura e situações de confronto com outras pessoas podem desencadear uma crise horas ou mesmo um dia após terem ocorrido. Esses antecedentes, incluem comportamentos (por exemplo, excesso de compromissos, hábitos de sono e de alimentação irregulares), afectos (tais como ansiedade, depressão), a maneira como a pessoa pensa (autocrítica severa, pensamentos negativos, catastróficos, etc.).
Os factores consequentes à crise de dor também envolvem comportamento, emoção e pensamento: tensão muscular em resposta à dor, uso excessivo de medicação analgésica, absentismo, perda de dias de trabalho/aulas, derrotismo diante da intensidade da crise de dor.
A pessoa é levada a analisar os factores antecedentes/consequentes, num protocolo, por escrito. Durante as sessões iniciais, ela discute com o terapeuta alternativas mais adequadas para lidar com a situação.

Elabora-se, a partir da identificação dos antecedentes/consequentes, um plano de tratamento que incluiu:

• Envolvimento dos familiares no tratamento;
• Melhoria da comunicação no ambiente doméstico;
• Reestruturação cognitiva;
• Controle da ingestão de analgésicos;
• Técnicas de relaxamento
• Técnicas de distracção da dor
• Técnica de bio-absorção imagética
• Técnicas de massagem terapêutica facial
• Planeamento e inclusão gradual de actividades físicas na rotina;
• Orientação dietética.

B – Identificação e mudança das cognições e emoções relacionadas à cefaleia e/ou enxaqueca. Nesta segunda etapa, explicamos à pessoa que crises severas e recorrentes de cefaleia desencadeiam emoções geralmente intensas, tais como ansiedade, depressão, raiva, sentimentos de culpa, desespero, frustração, cólera. Essas emoções são identificadas através de pensamentos distorcidos e automáticos, tais como: “Por que eu? Ninguém me entende”; “Eu não sirvo para nada mesmo”, “Com essa dor sou imprestável”. A díade pensamentos/emoções que acompanha a dor faz com que ela piore. Técnicas que possibilitem ao doente reformulação desses pensamentos terão reflexos sobre as emoções e podem alterar a vivência da dor, fazendo com que ela se torne suportável.

C – Mudança dos comportamentos relacionados à dor. À medida que a dor se vai instalando e as crises ficam recorrentes, pessoas com cefaleia, além de gradativamente diminuírem as actividades, começam inicialmente por cortar aquelas que dão mais prazer - por exemplo, ir a um cinema, para depois começar a faltar no trabalho, na escola e nas demais actividades consideradas obrigatórias. Como resultado, a depressão pode acentuar, e sentimentos de baixa auto-estima e aqueles ligados à incapacidade começam a surgir. Muitas vezes esses doentes têm frenofobia – medo de estarem a ficar loucos - pois a dor, situada na cabeça, sem aparente razão, leva-os a fantasiar que “tenho alguma coisa de errado comigo”. A família e os amigos podem acentuar essa suspeita infundada, com comentários do tipo: “Isso é psicológico! Deverias fazer terapia!”, ou “Por causa de uma dorzinha já te estás a queixar? Reage, será que não estás a exagera só para chamar a atenção?”.

A família pode também incentivar o comportamento doloroso quanto à toma de medicamentos, ou então vê a pessoa como um “coitadinho, está sempre tão doente!”. Informação, estabelecimento de objectivos a curto, médio e longo prazo, contratos comportamentais, nos quais o doente se compromete a fazer uma actividade física em lugar de ficar, por exemplo, em casa, são muito úteis. A inclusão de exercícios, relaxamento e a possibilidade de massagens específicas possibilitam ao doente maior contacto com o próprio corpo e identificá-lo como fonte de prazer, e não só de dor.

A prática tem demonstrado que, assim que a pessoa doente nota diminuição da intensidade ou da frequência das crises, fica mais propenso a substituir comportamentos de dor e mesmo a incluir novos comportamentos à sua rotina.

Os nossos serviços melhoram a sua saúde e bem-estar

Dr. Miguel Lucas
Psicólogo

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